quarta-feira, abril 19

Lúcia e o Sexo


Desde que me lembro, sempre tive uma ligeira incompatibilidade em relação aos “produtos” oriundos de Espanha, mas aos poucos temos que nos indo habituando aos nossos vizinhos, porque mais tarde ou mais cedo, devido à actual invasão da economia Portuguesa por parte Castelhana, seremos uma simples província Espanhola. É obvio que sermos parte de Espanha tem muitas desvantagens…a comida é horrível, falam muito rápido, têm a “siesta” (meus amigos se dormisse durante a tarde ficava impossível de aturar…pois é…um dos meus defeitos), comem azeitonas como nós comemos amendoins (Imagino as fábricas de papel higiénico em Espanha devem labutar na potencia máxima), apenas recebíamos as prendas de Natal no dia de Reis, ficávamos com a musica ainda com pior qualidade. Bem mas existe um pormenor pelo qual ficaria muito agradecido…o cinema (vejam só a “volta” que fui dar para chegar onde queria). De facto a nível cinematográfico temos muito que aprender com os geniais, Pedro Almodóvar, Alejandro Amenábar (embora sendo de nacionalidade Chilena, tem a sua base de trabalho em Espanha) e Júlio Medem.
É precisamente um filme do poeta de imagens, Júlio Medem que quero “hablar”…”Lúcia y el Sexo”. Inicialmente quando deparamos com o título ficamos um pouco reticentes, não acham?

“Lúcia y el Sexo” preenche de facto a promessa do título, temos imagens de sexo e algumas com cenas algo fortes, mas este é um dos pontos fortes que torna este filme um culto. As cenas de sexo raramente se sentem de forma gratuita. São utilizadas como uma caracterização, para exibir amor, alegria, embaraço, insegurança ou inibição, reflectindo sempre um estado de carácter das relações.
Na história, não querendo aprofundar muito…Uma empregada de mesa impetuosa (Lúcia - Paz Vega) recebe a noticia de que o seu namorado (Lorenzo - Tristán Ulloa) morreu num acidente, o que fatidicamente termina a relação. Entretanto devido à tristeza, Lúcia viaja para uma ilha no mediterrâneo que Lorenzo sempre falava mas recusava-se a visitar. É então que Lúcia começa a descobrir os segredos existentes na ilha que ele sempre escondeu, entretanto vão existindo flashbacks em que revelam os cincos anos de relacionamento de Lúcia e Lorenzo. É obvio que os melhores momentos do filme que Medem proporcionou não posso contar, mas vão existir filhas, traições, mortes (é só para alimentar a curiosidade) e não posso deixar de assinalar as magnificas paisagens de Formentera, uma ilha do arquipélago das Baleares e o excelente trabalho de fotografia executado por Kiko de la Rica, além da magnifica Banda sonora de Alberto Iglesias…mas existe um pormenor que queria evidenciar…as influências de David Lynch nos filmes de Júlio Medem são bastante perceptíveis.
Este é um filme sobre a fé das personagens e como elas interagem umas com as outras num ponto chave…a escrita de Lorenzo. O resultado é alertar para o processo criativo da história que estamos a assistir e é a ficção dentro da própria ficção.
O filme “Lúcia y el Sexo” é claramente um modelo das tragédias Gregas, onde uma serie de enormes ideias baseadas na fé e destino, funcionam como um conto de fadas, transportando o espectador até ás sumptuosas paisagens povoadas com personagens vividamente lançadas em circunstancias além das suas realizações ou controlo. Mas o destino pode levar amigos e amantes a separarem-se, mas também os pode juntar. Este filme tem umas personagens e um tesouro de opulentas experiências para revisitar muitas vezes…Brilhante!